O Banco Central (BC) promove, nesta sexta-feira (22/5), o evento Finanças, cidadania e bem-estar: os desafios das mulheres no Brasil, que apresenta estudos e pesquisas da instituição e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) que trazem evidências sobre gênero, raça e acesso ao crédito no Brasil, além de resultados de pesquisa qualitativa sobre educação financeira voltada às mulheres. O encontro é uma das atividades do BC durante a 13ª Semana Nacional de Educação Financeira.
A programação conta com debates sobre estratégias e iniciativas que contribuem para o fortalecimento do bem-estar financeiro das brasileiras. A abertura ficou por conta da Diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta do BC, Izabela Correa.
“Quando falamos sobre as mulheres e as desigualdades de gênero da nossa sociedade, a gente pode lembrar da escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir, que nos disse que ‘não se nasce mulher, torna-se mulher’. Se a biologia nos dá o substrato material, é definitivamente a sociedade que impõe o significado e os limites de sermos mulheres. Temos como sociedade que reconhecer uma série de avanços, mas também temos que lembrar que esses avanços, definitivamente, ainda são insuficientes para promover a igualdade que nós queremos”, destaca a Diretora.
A primeira parte do evento, Gênero e raça em foco: o que dizem os dados do Banco Central e do Sebrae, apresenta estudos sobre o tema. Participam Livia Bastos Gratz, Assessora no Departamento de Promoção da Cidadania Financeira (Depef) do BC, apresentando estudo sobre gênero, raça e crédito no Brasil, divulgado no novo Relatório de Cidadania Financeira (RCF); Giovanni Beviláqua, Coordenador de Acesso a Crédito e Investimentos do Sebrae Nacional, falando sobre o financiamento ao empreendedorismo feminino no Brasil; e Ana Márcia Fonseca, Chefe da Divisão de Educação Financeira do Depef/BC, apresentando pesquisa qualitativa sobre educação financeira para mulheres.
Em seguida, acontece a mesa Como promover o bem-estar financeiro das mulheres no Brasil?, moderada pela Diretora Izabela Correa. Entre as convidadas estão Fernanda Garibaldi, Diretora Executiva da Zetta; Karoline Buss Gesser, Diretora de Risco da Cresol Confederação; além da professora de Economia Heterodoxa e Feminista da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lucilene Morandi, e a educadora financeira Amanda Dias.
O encontro foi desenvolvido a partir de estudos do RCF 2025, que, neste ano, trouxe, pela primeira vez, o aprofundamento das análises com recorte por raça, e atualizou análises de edições anteriores sobre gênero, idade e renda. As análises consideraram diferentes dimensões, como acesso ao sistema financeiro, uso do crédito, qualidade dos serviços e letramento financeiro. Essa abordagem permite uma compreensão mais detalhada das experiências de diferentes públicos no sistema financeiro.
Segundo Livia Gratz, os resultados indicam que as mulheres participam ativamente do sistema financeiro, em níveis semelhantes aos dos homens, mas com padrões distintos: “Observa-se maior uso de instrumentos transacionais, como pagamento de boletos, geralmente de menor valor, e uma composição de crédito mais concentrada em modalidades sem garantia, em detrimento de linhas associadas à formação de patrimônio”.
Livia explica que os dados mostram, ainda, menor participação das mulheres em investimentos, maior comprometimento de renda com dívidas – especialmente entre as de menor renda –, menor resiliência financeira e maior nível de estresse associado à vida financeira. Além disso, ressalta que “para uma mesma raça, as mulheres contrataram créditos mais caros que os homens, e para um mesmo gênero, pessoas da raça negra contrataram créditos mais caros que pessoas da raça branca”. Esses achados reforçam um diagnóstico consistente de desigualdades estruturais, inclusive relacionadas à renda, às responsabilidades de cuidado e à sobrecarga de trabalho. Os resultados do relatório não apenas evidenciam essas diferenças, mas também contribuem para orientar debates e iniciativas que promovam maior equidade no sistema financeiro, ampliando as oportunidades de inclusão e autonomia econômica.
Para Ana Márcia Fonseca, o evento é importante, “porque nos faz refletir sobre como podemos melhorar a vida das mulheres no Brasil”. Ela recorda que desigualdades de gênero e raça ainda existem e afetam as mulheres, em especial as mulheres negras, de várias formas. Nas finanças, segundo ela, não seria diferente: “Com o encontro desta sexta-feira, pretendemos debater não só estudos e pesquisas que evidenciam essas desigualdades, mas caminhos para, de fato, promover mudanças no bem-estar financeiro de todas as mulheres hoje e no futuro”.
Relatório de Cidadania Financeira (RCF)
O boxe sobre empreendedorismo feminino do RCF 2025, elaborado pelo Sebrae, traz uma análise com dois pontos relevantes, alinhados com o tema do evento desta sexta-feira: a necessidade de adequar os produtos e a prestação de serviços financeiros para mulheres que estão tentando conciliar seus empreendimentos com o trabalho do cuidado; e a necessidade de desconstruir uma cultura que pressupõe que mulheres empreendedoras sejam menos capazes que homens. Isso tem implicações que vão desde aspectos mais evidentes – como a cobrança de taxas de juros mais elevadas para elas em comparação a eles – até efeitos mais sutis, como impactos na autopercepção e na autoeficácia, que podem gerar insegurança e comprometer a tomada de decisão e a iniciativa empreendedora, apesar da plena capacidade e da competência dessas mulheres.
O RCF reúne um esforço amplo do BC, envolvendo várias áreas, contando também com a participação de parceiros externos, e contém análises aprofundadas que utilizam diferentes bases de dados e o cruzamento de informações entre elas. Esse trabalho permite construir um diagnóstico consistente e acompanhar o progresso da cidadania financeira no Brasil.
As análises vão além dos dados agregados, que, por si só, não seriam capazes de contar uma parte importante da história. Ao incorporar recortes como gênero e raça, idade, renda e região geográfica, o relatório evidencia desigualdades no acesso e no uso de serviços financeiros, dando visibilidade a públicos mais vulneráveis. Com isso, contribui para identificar lacunas, orientar políticas e qualificar o debate – como neste evento, que aprofunda a discussão sobre mulheres –, ajudando a avançar a cidadania financeira de forma mais equitativa.
Veja o RCF completo aqui.
