A saída abrupta dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da Opep, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, é um movimento relevante. O país aderiu à Opep em 1967, antes mesmo de se tornar um Estado-nação, em 1971.
A Opep reúne principalmente exportadores de petróleo do Golfo e, por décadas, influenciou o preço do barril ao ajustar a produção e estabelecer cotas entre seus membros.
Teve papel central nas crises do petróleo dos anos 1970, que transformaram a política energética global. A Opep foi formada em 1960 como um cartel, com o objetivo de controlar a oferta mundial de petróleo e seu preço.
Hoje, as nações da Opep produzem cerca de 30% do petróleo bruto do mundo. Em 2016, quando os preços do petróleo estavam particularmente baixos, a Opep se uniu a 10 outros produtores de petróleo para criar a Opep+, com 23 membros que somam cerca de 40% da produção global. O Brasil participa de discussões da Opep+, mas não aderiu aos compromissos do grupo.
Embora a produção da Opep seja liderada pela Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos detêm a segunda maior capacidade ociosa de produção. Em outras palavras, são o segundo principal “produtor de ajuste”, com capacidade de elevar a produção para ajudar a conter eventuais aumentos dos preços, por exemplo.
Foi justamente esse papel que levou a reavaliar sua posição no longo prazo. Em termos simples, os Emirados Árabes Unidos querem usar a capacidade em que investiram.
As cotas da Opep limitavam a produção dos Emirados Árabes Unidos a algo entre 3 milhões e 3,5 milhões de barris por dia. Na prática, o país vinha se sacrificando, com perda de receita, por causa de exigências do acordo com a Opep.
O momento da decisão indica impactos da guerra com o Irã. A tensão crescente no Golfo afetou a relação dos Emirados Árabes Unidos com o Irã e pode agravar o desgaste com a Arábia Saudita.
Para a Opep, este é um golpe relevante, num momento em que já se questiona a coesão do grupo no longo prazo.
Não é só uma questão de os Emirados Árabes Unidos buscarem níveis próximos de 5 milhões de barris por dia, caso consigam escoar plenamente sua produção por mar ou oleodutos. Há também o risco de reação da Arábia Saudita, possivelmente com uma guerra de preços, algo que a economia mais diversificada dos Emirados Árabes Unidos poderia suportar, mas que outros membros mais pobres não conseguiriam.
Muito dependerá da resposta da Arábia Saudita.
Autoridades dos Emirados Árabes Unidos discutem a construção de novos oleodutos a partir dos campos de Abu Dhabi, contornando o estreito de Ormuz e direcionando a produção ao porto de Fujairah, hoje subutilizado.
Já existe um oleoduto em operação, mas será preciso ampliar a capacidade para dar conta do aumento da produção e de mudanças duradouras na circulação e no custo do transporte de petróleo no Golfo.
No momento, com o tráfego marítimo no estreito de Ormuz afetado por um bloqueio duplo, esse não é o principal fator a influenciar os mercados, que impactam os preços de petróleo, gás, combustíveis, plásticos e alimentos.
Embora o foco esteja no barril a US$ 110 (cerca de R$ 550), não se pode descartar a possibilidade de queda para perto de US$ 50 (aproximadamente R$ 250) no próximo ano, por exemplo, se a situação no estreito for resolvida a tempo das eleições legislativas nos EUA ainda este ano.
A Opep hoje tem menos peso no mercado global do que nos anos 1970. Sua participação no comércio internacional de petróleo caiu cerca de 85% para cerca de 50%. O petróleo também é menos central para a economia mundial. A organização ainda exerce influência, mas não tem mais o poder de impor suas condições ao restante do mundo.
Lembro-me de ouvir do líder da Opep, o ex-ministro do petróleo da Arábia Saudita, Sheikh Yamani: “A Idade da Pedra não terminou porque o mundo ficou sem pedras. A era do petróleo não vai terminar porque o mundo ficará sem petróleo”. A frase antecipa um cenário em que os hidrocarbonetos são substituídos por outras fontes de energia.
Uma forma de entender a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep é como um sinal da redução da dependência global em relação ao petróleo. Há outros sinais à vista: os investimentos da China em eletrificação ajudaram a aliviar no país o impacto do aumento dos preços do petróleo e do gás durante a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Segundo algumas estimativas do mercado, o processo de eletrificação na China de carros, caminhões e trens reduziu a demanda por petróleo em 1 milhão de barris por dia. Vale lembrar que a China é a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA. Como essa tendência de eletrificação tem acelerado em outros países, a demanda global por petróleo pode atingir seu ápice em breve.
Sob esse ponto de vista, faz sentido extrair o máximo valor possível (e o mais rápido possível) das reservas de petróleo antes que a demanda despenque. Os Emirados Árabes Unidos têm poder de fogo financeiro e uma economia parcialmente diversificada por meio de serviços financeiros e do turismo.
Muito vai depender do que será o “novo normal” se e quando cessar o conflito na região.
A saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep pode desencadear um efeito dominó em outros países do grupo, elevando a pressão sobre a Arábia Saudita.
Quando os cargueiros voltarem a transitar pelo estreito de Ormuz novamente, ou se os Emirados Árabes Unidos redobrarem suas tentativas de construir novos oleodutos, o petróleo vai fluir dos Emirados Árabes Unidos como nunca, sem qualquer restrição ligada a compromissos com a Opep.
A medida terá poucos efeitos nos bloqueios atuais. Mas pode mudar tudo depois.
A saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep pode redefinir o mercado global de petróleo. Os efeitos podem, a médio prazo, derrubar o preço do barril.
Como disse, no curto prazo, os preços continuarão atrelados à crise no Golfo, especialmente no estreito de Ormuz. O bloqueio marítimo é hoje o principal fator de pressão sobre o mercado.
Mas o cenário pode mudar rapidamente. Caso a situação se normalize, há espaço para uma queda relevante nos preços.
Por isso, não se descarta a possibilidade de que ele possa estar mais próximo de US$ 50 (cerca de R$ 250) em algum momento no próximo ano — se a situação no estreito for resolvida, por exemplo, a tempo das eleições de meio de mandato nos EUA ainda este ano, quando o controle do Congresso americano pode passar das mãos do Partido Republicano (ao qual o presidente Donald Trump pertence) para o Partido Democrata (de oposição ao governo Trump). O preço dos combustíveis e a inflação serão centrais nessa disputa eleitoral.
Existe, portanto, a possibilidade de o barril recuar significativamente em relação aos níveis atuais.
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