O jogo por trás da Copa: como empresas e governos fazem do Mundial uma disputa por influência


Agora no g1
O que uma petrolífera estatal saudita, um banco americano, uma companhia aérea do Catar e gigantes do setor de alimentos têm em comum? Todas disputam hoje um dos espaços comerciais mais valiosos do planeta: a Copa do Mundo.
Na edição de 2026, a lista de patrocinadores reúne desde marcas tradicionais, como Adidas, Coca-Cola e Unilever, até empresas ligadas ao sistema financeiro, ao petróleo, à tecnologia e a governos, como Bank of America, Verizon, Qatar Airways e Aramco.
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Essa composição mostra uma mudança importante: o Mundial deixou de ser apenas uma vitrine para grandes multinacionais e passou a reunir também empresas estatais, instituições financeiras e grupos que fazem parte da estratégia internacional de seus países.
A transformação também aparece nos números. Para o ciclo de 2023 a 2026, a FIFA estima arrecadar até US$ 13 bilhões, mais de cinco vezes o total registrado duas décadas antes. No mesmo período, as receitas com direitos de marketing passaram de US$ 560 milhões para uma estimativa de US$ 1,8 bilhão.
Faturamento da FIFA cresce ano após ano desde 2006
Arte/g1
Registrada na Suíça como uma associação sem fins lucrativos, a FIFA afirma que reinveste esses recursos no desenvolvimento do futebol. Ao longo da última década, porém, a entidade também enfrentou crises relacionadas à corrupção e à transparência na gestão desse dinheiro, o que levou à adoção de novas regras de controle e fiscalização.
Mais do que o crescimento da arrecadação, a forma de comercializar a Copa também mudou. Nas últimas duas décadas, a FIFA reorganizou a venda dos espaços comerciais do torneio, ampliando as categorias de patrocínio e abrindo espaço para um número maior e mais diverso de empresas.
Quando a Copa virou um negócio global
Segundo Flávio de Campos, professor da pós-graduação em História Social do Futebol da USP e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), a transformação da Copa em uma plataforma global de negócios começou a ganhar força ainda na década de 1970.
O pesquisador explica que o antecessor de João Havelange na presidência da FIFA, Stanley Rous, já defendia uma maior aproximação da entidade com empresas. Com a eleição do dirigente brasileiro, em 1974, esse modelo foi ampliado.
“A partir daí, a Copa passa a se consolidar como uma grande vitrine para negócios e propaganda, com a aproximação da FIFA das empresas e o fortalecimento do marketing em torno do torneio.”
As mudanças iniciadas naquele período abriram caminho para o crescimento das receitas da FIFA nas décadas seguintes. Mais do que o aumento da popularidade do torneio, foi a própria forma de vender os espaços comerciais que mudou, permitindo ampliar a presença de empresas e diversificar as fontes de arrecadação.
Até o início dos anos 2000, o patrocínio era mais concentrado e reunia um número menor de empresas. A partir dos ciclos de 2010 e 2014, a FIFA consolidou um modelo que passou a organizar os patrocinadores em diferentes categorias, ampliando as possibilidades de participação no torneio.
👑 No topo estão os FIFA Partners, empresas com direitos globais e contratos de longo prazo válidos para várias competições da entidade.
🏆 Em seguida vêm os patrocinadores da Copa, com direitos limitados ao Mundial específico.
📍 Na base ficam apoiadores regionais e fornecedores locais.
Como a FIFA divide o espaço comercial da Copa?
Arte/g1
Governos entram no jogo comercial
A ampliação das categorias de patrocínio não aumentou apenas o número de empresas na Copa.
Ela também abriu espaço para um novo perfil de patrocinadores, incluindo companhias estatais e empresas ligadas a governos. Essa mudança, porém, aconteceu de forma gradual.
Nas Copas realizadas entre 2006 e 2014, a principal estratégia de projeção internacional ainda estava concentrada nos países anfitriões.
Mais do que organizar partidas, Alemanha, África do Sul e Brasil aproveitaram o torneio para reforçar, perante o mundo, atributos como estabilidade, capacidade de organização e potencial econômico.
Segundo Campos, para países emergentes, sediar uma Copa representava uma oportunidade de ampliar a visibilidade internacional e atrair investimentos. No caso dos integrantes dos BRICS que receberam o torneio, o objetivo era apresentar economias em desenvolvimento e abertas a novos negócios.
A África do Sul procurou apresentar ao mundo um país reconstruído após o apartheid — regime de segregação racial que vigorou entre 1948 e 1994 —, enquanto o Brasil buscava se projetar como um lugar de oportunidades, deixando para trás décadas marcadas pela ditadura e por sucessivas crises econômicas.
“Na época da Copa de 2014, falava-se muito na ideia de uma ‘janela de oportunidades’ e no legado do torneio. O evento permitiu apresentar países como Brasil e África do Sul como lugares de oportunidades, dando a eles uma visibilidade internacional que dificilmente alcançariam por outros meios”, diz o historiador.
Naquele período, embora multinacionais como Adidas, Coca-Cola e Visa ocupassem as principais cotas comerciais da FIFA, a imagem promovida pelo torneio ainda estava concentrada, sobretudo, no país-sede.
Esse equilíbrio começou a mudar a partir da Copa da Rússia, em 2018. Além de sediar o Mundial, o país passou a ocupar espaço na própria estrutura comercial da FIFA por meio da Gazprom, estatal de energia que se tornou parceira global da entidade.
Quatro anos depois, o Catar ampliou essa estratégia ao incluir duas empresas diretamente ligadas ao governo — Qatar Airways e QatarEnergy — entre os principais patrocinadores do torneio.
Para Campos, esse movimento indica que o patrocínio deixou de cumprir apenas uma função comercial e passou a integrar a estratégia internacional de alguns governos.
🏟️ É o chamado “sportswashing”, conceito utilizado para descrever o uso do esporte como ferramenta para melhorar a imagem de países, governos ou empresas, muitas vezes desviando a atenção de problemas políticos, sociais ou relacionados aos direitos humanos.
“No caso do Catar, havia uma tentativa de contrabalançar a imagem de uma monarquia autoritária, marcada por denúncias de tortura, homofobia, machismo e pela dependência do petróleo em um momento de crise climática. A Rússia também usou o torneio nessa lógica de projetar uma imagem mais favorável no cenário internacional.”
Do soft para o hard power
A Copa de 2026 marca uma nova etapa nessa disputa por influência internacional.
Pela primeira vez, o torneio será organizado por três países — Estados Unidos, Canadá e México —, ao mesmo tempo em que reúne patrocinadores de diferentes setores da economia e empresas ligadas a governos.
Essa configuração reduz o protagonismo que, em outras edições, costumava ficar concentrado no país anfitrião. Agora, a disputa por visibilidade passa a ocorrer também entre empresas e Estados que ocupam espaço dentro da própria estrutura comercial da FIFA.
A Arábia Saudita é um dos exemplos desse movimento. O país passou a ocupar a categoria mais alta de patrocínio da entidade por meio da Aramco, petrolífera controlada pelo governo saudita.
💰 Segundo um estudo da Human Rights Foundation, o contrato firmado entre a empresa e a FIFA é estimado em cerca de US$ 100 milhões por ano, entre 2024 e 2034.
📈 Avaliada em aproximadamente US$ 1,88 trilhão após sua abertura de capital, a Aramco integra uma estratégia mais ampla do reino, que reúne cerca de 300 patrocínios esportivos vinculados principalmente ao Fundo de Investimento Público (PIF).
Para Campos, porém, a principal novidade da Copa de 2026 vai além da entrada de novos patrocinadores.
Isso porque o capital americano sempre esteve presente na estrutura comercial do torneio por meio de empresas multinacionais e de seus acionistas, mesmo quando os patrocinadores oficiais não representavam diretamente o governo norte-americano.
“Em outros países, a FIFA conseguiu impor condições que chegaram a relativizar legislações nacionais. Nos EUA, prevalece o poder do império, eles utilizam seu poder político e militar para estabelecer as próprias regras, inclusive em questões diplomáticas relacionadas ao torneio.”
Na avaliação de Campos, essa postura mostra que a disputa em torno da Copa deixou de envolver apenas interesses econômicos e passou a refletir também disputas geopolíticas.
Com o avanço econômico e tecnológico da China, afirma o historiador, os EUA passaram a recorrer com maior intensidade ao chamado “hard power” — o uso do poder político e militar para preservar sua influência internacional.
Para ele, essa lógica também aparece na organização da Copa.
“Houve casos de tratamento preconceituoso dado a delegações de países como o Iraque, além de seleções africanas e sul-americanas, incluindo a proibição de que a delegação do Irã permanecesse em território americano após a realização de suas partidas.”
Integrantes da equipe de apoio carregam letras que formam a palavra “FIFA” antes da partida entre Bélgica e Senegal, pela Copa do Mundo de 2026, no Seattle Stadium, em Seattle (EUA).
REUTERS/Lee Smith.

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