Por que o petróleo não dispara mesmo com ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela


Petróleo em 2026: excesso de oferta deve manter preços mais baixos
As tensões envolvendo os Estados Unidos, o Irã e a Venezuela causaram preocupações no mercado de petróleo, mas não foram suficientes para mudar as expectativas para os preços do produto ao longo deste ano.
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o mercado internacional de petróleo vive um momento de excesso de oferta nos países produtores, o que deve ajudar a manter os preços mais baixos nos próximos meses.
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A previsão do mercado é que o preço do barril de petróleo fique entre US$ 60 e US$ 65 em 2026. Esse patamar está próximo do limite necessário para que os investimentos das empresas do setor sigam sendo viáveis, especialmente os projetos mais caros.
No Brasil, o petróleo mais barato costuma ajudar a segurar os preços da gasolina e do diesel, o que tende a aliviar a inflação. Por outro lado, também pode prejudicar as contas públicas, já que uma boa parte da arrecadação vem dos impostos das cadeias de combustíveis e exportação de petróleo. (entenda mais abaixo)
Efeito Trump?
Grande parte dos eventos geopolíticos que influenciaram o preço do petróleo está relacionada ao presidente dos EUA, Donald Trump.
Nos primeiros dias de 2026, Trump ordenou um ataque contra a Venezuela, em uma ação que resultou na prisão do presidente do país, Nicolás Maduro. A operação abriu caminho para um maior acesso dos EUA ao petróleo venezuelano.
Ainda no fim de semana, Trump afirmou que os EUA passariam a administrar a Venezuela de forma temporária e assumiriam o controle das vendas de petróleo do país.
Houve impacto imediato nos mercados, mas o efeito durou pouco. Na segunda-feira, o barril do petróleo Brent — referência para o mercado — subiu 1,6%, para US$ 61,76. Na terça-feira, despencou 7%, para US$ 60,70. Os dados são da consultoria Elos Ayta.

No Irã, que enfrentava uma onda de protestos desde 28 de dezembro, as tensões também aumentaram depois que Trump sugeriu a possibilidade de atacar o país.
🔎 O Irã é um dos países fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e o 5º maior produtor de petróleo do mundo. Além disso, o país fica próximo ao Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por navios no planeta.
Com a ameaça de Trump, investidores passaram a temer interrupções na produção iraniana e no tráfego pelo Estreito de Ormuz. O petróleo subiu mais de 4%, de US$ 63,87 para US$ 66,52. Mas os preços voltaram a cair após o recuo do presidente americano dois dias depois.
Entenda a escalada dos protestos no Irã
O vaivém do presidente americano é uma característica conhecida. Desde então, ele voltou a ameaçar o regime iraniano dos aiatolás e afirmou que o país deveria fechar um acordo para evitar um novo ataque. Agora, Trump diz querer negociar o programa nuclear iraniano.
Representantes dos dois países chegaram a se encontrar na última sexta-feira (6), em uma “atmosfera muito positiva”, segundo o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi.
“Em um clima muito positivo, nossos argumentos foram trocados e os pontos de vista da outra parte nos foram apresentados”, disse Araqchi à TV estatal iraniana, acrescentando que as duas partes “concordaram em continuar as negociações, mas decidiremos posteriormente sobre as modalidades e o cronograma”.
Segundo o diretor-geral da ANP, Artur Watt, apesar de as incertezas geopolíticas terem provocado o sobe e desce no curto prazo, ainda não está claro se elas vão afetar a oferta de petróleo no futuro.
“O preço do petróleo já vinha em trajetória de baixa. Mas é normal que as notícias tragam oscilações”, diz.
Sem pânico
Apesar das tensões geopolíticas, analistas acreditam que a dinâmica de oferta e demanda ainda prevalece nas análises do mercado. E a oferta segue elevada.
“O mercado tem uma expectativa de baixa para os preços do petróleo. Há um consenso de que os balanços de oferta e demanda para 2026 indicam excesso de oferta”, diz o responsável pela cobertura de óleo e gás da XP, Régis Cardoso.
O especialista acrescenta que a situação envolvendo o Irã aumenta o risco para produtores que dependem do Estreito de Ormuz, mas ressalta que esse risco já está incorporado aos preços. Mesmo que algo aconteça, o impacto tende a ser limitado.
“Isso ainda é uma discussão sobre riscos futuros. O que aconteceu até o momento não teve efeito sobre os balanços de oferta e demanda do mercado”, completa.
No caso da Venezuela, mesmo que os EUA passem a controlar as vendas de petróleo do país, os efeitos tendem a ser apenas de curto prazo. Como mostrou o g1, seriam necessários investimentos bilionários das petroleiras e um aumento consistente da produção para que houvesse mudanças duradouras.
Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), lembra ainda que o tipo de petróleo produzido na Venezuela é mais pesado e mais difícil de processar.
“Algumas refinarias conseguem processar, mas isso exige tecnologia e conhecimento técnico. E essa é uma capacidade que a Venezuela hoje não tem”, diz.
Segundo estudos do IBP, seriam necessários cerca de dois anos para iniciar projetos de retomada da produção no país e pelo menos oito anos para recuperar os níveis que a Venezuela já teve no passado — o país chegou a produzir mais de 3 milhões de barris de petróleo por dia nos anos 1970.
E o Brasil?
Caso os preços do petróleo realmente fiquem entre US$ 60 e US$ 65 neste ano, o Brasil encara dois efeitos principais.
1️⃣ Por um lado, uma parte relevante das contas públicas depende do petróleo. Quando o preço cai, a arrecadação também diminui.
Isso afeta:
Royalties e participações especiais: quanto menor o preço do barril no mercado internacional, menor é a arrecadação para a União, os estados e os municípios produtores;
Dividendos da Petrobras: preços mais baixos reduzem os lucros da empresa e, consequentemente, os dividendos distribuídos. Isso afeta o governo, acionista controlador.
Além disso, preços mais baixos tendem a reduzir o número de projetos das petroleiras, já que o retorno deixa de compensar o volume de investimento necessário.
2️⃣ Em contrapartida, preços mais baixos ajudam a conter a inflação ao reduzir a pressão sobre os preços dos combustíveis.
🤔 Mas, se os preços do petróleo estão mais baixos, por que a gasolina continua cara?
Segundo especialistas consultados pelo g1, parte da explicação está na política de preços da Petrobras.
“A Petrobras tem buscado reduzir a volatilidade nos preços da gasolina e do diesel, e por isso existe a impressão de que a queda dos preços não se reflete na bomba”, explica Cardoso, da XP.
Ele acrescenta que o preço final pago pelo consumidor depende de vários fatores, e não apenas do preço do petróleo. “De modo geral, os preços da Petrobras têm oscilado em torno da paridade com o preço internacional”, afirma.
No fim de janeiro, a Petrobras anunciou uma redução de R$ 0,14 no preço médio da gasolina A, após três meses sem alterações. A última mudança havia sido anunciada em outubro de 2025.
Segundo a companhia, os preços praticados pela empresa representam apenas um terço do valor final pago pelos consumidores nos postos.
Exploração de petróleo em Sergipe
Agência Sergipe

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