Investida de Trump na Venezuela tende a impulsionar nova dinâmica de petróleo na América Latina


Por que o petróleo da Venezuela é tão importante para os EUA
A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total.
Entretanto, desde a estatização do setor no país e a saída das companhias americanas e britânicas na era chavista, a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia – muito abaixo de concorrentes de peso como Arábia Saudita, Rússia e os próprios Estados Unidos.
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O economista Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e experiente especialista no mercado internacional de petróleo, vê um cenário favorável para os países detentores de reservas na América Central e do Sul ingressarem com força na corrida não só pelo óleo, como também pelo gás.
“Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, observa, ao lembrar que os investimentos e a produção de gás de La Paz também desmoronaram após a estatização dos campos pelo ex-presidente Evo Morales.
“Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia, onde haverá eleições este ano e parece que o favorito é o candidato da direita, assim como no Chile, onde a direita venceu.”
No Brasil, o cenário eleitoral para 2026 aponta o presidente Lula como favorito à reeleição. O petista não esconde o apetite pela abertura de novas frentes de exploração de petróleo no país, que hoje é o sétimo maior produtor mundial.
Petrobras sob pressão
A volta dos americanos à Venezuela e de Caracas como protagonista do mercado mundial tende a estimular a competição internacional pela atuação na margem equatorial brasileira, colocando a Petrobras sob pressão.
Em 2025, após 12 anos, a companhia recebeu autorização para iniciar os estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na área, ao norte do Brasil.
“Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires.
O provável aumento da oferta mundial de petróleo levará à queda ainda maior do preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60.
A diminuição do valor nos próximos dois anos já era antecipada pelos analistas, devido a uma oferta abundante e não acompanhada por aumento da demanda. A esperada alta da produção venezuelana acentua o fenômeno.
Aumento das vendas para a China
Mas, se por um lado as receitas das vendas vão cair, com impacto nas decisões de investimentos e fluxos de caixa, por outro a derrubada do regime de Nicolás Maduro cria uma oportunidade para a petroleira brasileira: aumentar as exportações para a China.
Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado.
Adriano Pires ressalta que o Brasil está em curva ascendente de produção, passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027.
“Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, afirma o economista. “Aí eu não sei como é que o Trump vai olhar para isso.”
Para o especialista, o objetivo número 1 do presidente americano ao intervir na Venezuela foi barrar o acesso chinês ao petróleo do país e se tornar um player incontornável deste mercado.
“O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”, indica Pires.
“No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”
Equipamentos com logo da PDVSA, empresa estatal venezuelana de produção de petróleo, em imagem registrada em Lagunillas, Venezuela.
Isaac Urrutia/Reuters/Foto de arquivo

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