
✨ ChatGPT, Gemini, Copilot. Nos últimos anos, esses nomes dominaram as conversas sobre inteligência artificial. Mas um novo protagonista já chama a atenção de usuários, empresas e especialistas: o Claude.
Enquanto seus rivais começaram focando no público geral, a Anthropic, criadora do Claude, concentrou seus esforços em oferecer sua tecnologia para empresas.
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Especialistas consultados pelo g1 afirmam que a Anthropic passou a liderar a corrida da inteligência artificial ao desenvolver o que consideram ser a IA mais poderosa — e potencialmente mais perigosa — da atualidade. Isso tem aumentado o interesse de investidores e do público em geral.
Enquanto desenvolve versões cada vez mais potentes, a Anthropic também defende uma pausa global na evolução da IA diante de sinais de que sistemas mais avançados poderiam escapar do controle humano. O argumento é de que as pesquisas de segurança precisam de mais tempo para acompanhar o ritmo da tecnologia.
Eles talvez estejam certos. Assim como aconteceu com a rival OpenAI em julho, a Anthropic informou na última quinta-feira (30) que o Claude realizou ataques virtuais contra três empresas durante testes. Segundo a empresa, um erro de configuração permitiu que a ferramenta tivesse acesso à internet.
A empresa
A Anthropic, criadora do Claude, foi fundada em 2021 por Dario Amodei (atual CEO da companhia) e outros executivos que deixaram a OpenAI defendendo uma abordagem mais cautelosa para o desenvolvimento da IA.
O Claude só chegou ao público em março de 2023, cerca de cinco meses após o lançamento do ChatGPT. Mesmo tendo entrado na disputa mais tarde e ainda sendo menos conhecido do grande público, o chatbot ajudou a impulsionar uma virada impressionante da Anthropic.
Hoje, ela é a startup de IA mais valiosa do mundo. Avaliada em cerca de US$ 965 bilhões (R$ 4,87 trilhões), a companhia já supera a OpenAI em valor de mercado.
No início de junho, a Anthropic protocolou de forma confidencial um pedido de abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) nos Estados Unidos. Com um valuation próximo de US$ 1 trilhão, a companhia poderá passar a integrar o grupo mais seleto das empresas listadas no mercado americano.
A grande virada
Claude costuma ser mais usado por empresas e ChatGPT, por usuários privados
Matteo Della Torre/NurPhoto/picture alliance via DW
O Claude foi lançado globalmente em 2023, mas só chegou ao mercado brasileiro em agosto de 2024 — mais uma vez, depois do ChatGPT, que já estava disponível por aqui desde meados de 2022.
Em 2025, a Anthropic lançou o Claude Skills, recurso que permite à IA aprender a executar tarefas específicas. Já em 2026 vieram o Claude Code e o Claude Cowork, ferramentas que marcaram o grande “boom” do Claude ao permitir que a IA passasse a realizar ações diretamente no computador do usuário.
O lançamento do Claude Code, ferramenta de programação com IA capaz de criar sites, foi um marco para a Anthropic e ajudou a ampliar a visibilidade da empresa, explica Diogo Cortiz, especialista em IA e professor da PUC-SP.
“Ele permitiu que a IA realizasse tarefas de longa duração, que podem levar horas ou até dias, por meio de subagentes, robôs que executam etapas do trabalho de forma autônoma”, afirma.
Segundo Izabela Anholett, especialista em IA e fundadora da Nura AI, o Claude também se tornou popular entre profissionais de marketing e criação. “Ele virou o queridinho desses profissionais para a produção de textos criativos, roteiros para redes sociais e peças de campanha, sendo considerado superior ao ChatGPT nesse tipo de tarefa”, diz.
“Além disso, o diferencial do Claude é permitir a criação de automações e a integração com serviços como e-mail sem exigir conhecimentos de programação”, afirma.
Ela ressalta que outras IAs também realizam tarefas semelhantes — o g1, por exemplo, testou o agente do ChatGPT em 2025. A diferença, de acordo com a especialista, é que o Claude consegue automatizar essas funções de forma mais rápida e eficiente.
Embora seja muito elogiado por quem o utiliza, o potencial do Claude é melhor aproveitado nos planos pagos, que não são tão acessíveis. No Brasil, o plano Pro, o mais barato disponível, custa R$ 110 por mês e ainda impõe limites de uso.
“É importante dizer que saímos daquela grande euforia das IAs para uma fase de maior racionalidade em relação aos custos. Muitas pessoas e empresas estão buscando um uso mais efetivo e consciente da tecnologia porque as contas estão ficando muito altas”, diz Cortiz.
ChatGPT ainda domina mercado
Apesar do avanço dos concorrentes, o ChatGPT segue com ampla liderança em número de usuários, segundo um levantamento da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower divulgado neste ano.
Os dados mostram que, até maio de 2026, o chatbot da OpenAI registrava cerca de 1,1 bilhão de usuários ativos mensais. Em segundo lugar aparece o Gemini, do Google, com 662 milhões.
“O Gemini tem expandido sua audiência de forma constante, apoiado em parte por uma sólida base de usuários do Android e por integrações profundas em todo o ecossistema do Google”, afirmou a Sensor Tower.
O Claude aparece na terceira posição, com 224 milhões de usuários ativos mensais. Segundo a empresa de análise, a ferramenta da Anthropic vem registrando crescimento acelerado desde o início do ano.
O levantamento também mostra que, enquanto Gemini e Claude continuam ganhando espaço, a participação do ChatGPT caiu para abaixo dos 50% pela primeira vez. Em maio, o chatbot da OpenAI concentrava 46% dos usuários do mercado, à frente do Gemini, com 28%, e do Claude, com 10%.
“O crescimento do Claude foi ainda mais forte em alguns mercados, incluindo os EUA, onde a demanda por recursos de programação e pesquisa avançada atraiu mais usuários”, destacou a Sensor Tower.
Diogo Cortiz afirma que foi apenas nos últimos seis meses que o Claude começou a ganhar espaço de forma mais significativa entre os consumidores comuns. “E parte dos usuários tem migrado do ChatGPT para o Claude por buscar uma IA capaz de executar tarefas, como organizar arquivos e responder e-mails, em vez de apenas conversar”, completa Izabela.
Empresa tem modelo de IA mais perigoso do mundo
Claude Fable 5 simula o sistema solar e prevê um eclipse solar.
Divulgação/Claude
Os modelos do Claude têm se mostrado cada vez mais potentes. “Eles costumam acertar muito nos lançamentos. Dá para perceber um grande cuidado no desenvolvimento dos produtos, que geralmente chegam ao mercado com um desempenho muito competitivo”, diz Izabela Anholett.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que os sistemas mais avançados da Anthropic também ampliam os riscos associados à inteligência artificial.
No início de 2026, a empresa anunciou o Claude Mythos, considerado por especialistas o modelo de IA mais perigoso do mundo atualmente. O sistema é descrito como extremamente rápido e capaz de encontrar brechas de segurança que passariam despercebidas por humanos.
“Se o Mythos for parar em mãos erradas, empresas podem ser paralisadas da noite para o dia”, afirma Izabela. Segundo ela, o risco está na capacidade do modelo de identificar e explorar vulnerabilidades em sistemas digitais.
“O Mythos Preview [versão de teste] já encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade, incluindo algumas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores web”, afirmou a Anthropic.
“Devido ao seu alto poder e aos riscos que representa para a segurança nacional e geral, ele não foi liberado para o público comum. Em vez disso, a Anthropic criou um consórcio de empresas e agências governamentais com acesso à ferramenta”, explica Diogo Cortiz.
Entre os integrantes do grupo estão Amazon, Apple, Microsoft, Google, Nvidia, Broadcom e Mozilla.
Cortiz lembra que um exemplo da eficácia do modelo veio de um relatório da Mozilla. Ao utilizar o Mythos para analisar o navegador Firefox, a organização identificou uma grande quantidade de vulnerabilidades e falhas até então desconhecidas.
“Como parte de nossa colaboração contínua com a Anthropic, tivemos a oportunidade de usar uma versão inicial do Claude Mythos Preview no Firefox. A versão 150 do navegador, lançada nesta semana, traz correções para 271 vulnerabilidades identificadas durante essa avaliação inicial”, disse a Mozilla em um relatório sobre o tema publicado em abril.
Para Cortiz, embora o marketing das empresas de IA às vezes possa exagerar as capacidades de seus produtos, casos como esse mostram que a habilidade do Mythos para encontrar brechas de segurança é real — e ajudam a explicar por que seu acesso é tão restrito.
A proibição do Fable 5, uma versão ‘light’ do Mythos
Dario Amodei, diretor-executivo da Anthropic, e Donald Trump, presidente dos EUA
Reuters/Bhawika Chhabra; Reuters/Nathan Howard
Junho de 2026 foi um período conturbado para a Anthropic. No início do mês, a empresa disponibilizou o Fable 5, descrito por ela como o modelo de IA mais poderoso já oferecido ao público geral.
O sistema faz parte do Mythos e, segundo a companhia, alcança desempenho de ponta em áreas como engenharia de software, análise de dados, pesquisa científica, visão computacional e tarefas complexas de raciocínio.
Apesar da abertura ao público, a empresa decidiu impor restrições em temas considerados sensíveis. Quando usuários fizerem solicitações relacionadas à cibersegurança, biologia, química ou técnicas de extração de conhecimento de modelos de IA, o sistema poderá transferir automaticamente a conversa para uma versão menos poderosa, chamada Claude Opus 4.8.
Só que, no dia 12 de junho, a Anthropic anunciou a suspensão global do Fable 5 após receber uma determinação do governo dos EUA com base em questões de segurança nacional.
Segundo a empresa, a ordem impede o acesso aos sistemas por qualquer cidadão estrangeiro, esteja ele dentro ou fora dos EUA. A restrição também vale para funcionários estrangeiros da própria Anthropic.
Uma reportagem do jornal norte-americano “The Wall Street Journal” revelou que a Amazon teria sido a principal responsável pela pausa no lançamento do Fable 5.
Segundo o jornal, pesquisadores da empresa utilizaram uma série de prompts (comandos) que levaram o sistema a auxiliar em ciberataques. A informação chegou à Casa Branca, que determinou a suspensão da IA por considerá-la um risco.
A Anthropic rebateu a decisão. “Instituímos salvaguardas fortes que reduzem muito a probabilidade de Fable ser mal utilizado para tarefas relacionadas à cibersegurança (entre outras). Na verdade, nossas salvaguardas são tão fortes que muitos usuários reclamaram que são excessivamente amplas”, afirmou a empresa.
O Fable 5 voltou a ser liberado globalmente em 1º de julho. “Recebemos uma notificação de que o Departamento de Comércio suspendeu os controles de exportação sobre o Claude Fable 5 e o Mythos 5”, afirmou a Anthropic em uma publicação no X.
Antes desse episódio, em março deste ano, Anthropic e Donald Trump já haviam se envolvido em um embate após o Departamento de Guerra dos EUA informar à empresa que ela havia sido classificada como um risco à cadeia de fornecimento. A medida foi tomada depois que a Anthropic impediu que o órgão utilizasse sua tecnologia para fins militares.
Diante do impasse, Trump determinou que agências federais dos EUA interrompessem o uso de programas de IA da Anthropic. O presidente afirmou que o país não permitirá que a empresa dite como os militares americanos devem agir e que essa decisão cabe aos líderes das Forças Armadas nomeados por ele.
“O egoísmo deles está colocando vidas americanas em risco, nossas tropas em perigo e nossa segurança nacional sob ameaça”, declarou Trump.
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