
Trump indica Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve, o banco central dos EUA
A primeira reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sob o comando de Kevin Warsh termina nesta quarta-feira (17) em um cenário que costuma preocupar: inflação resistente, mercado de trabalho aquecido e pressão política por juros mais baixos.
A expectativa de mercado financeiro é de que os juros sejam mantidos entre 3,5% e 3,75% ao ano. Ainda assim, o encontro é visto como o início de uma nova fase do BC americano.
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Mais do que a decisão desta semana, os investidores buscam entender como Warsh pretende conduzir a instituição nos próximos anos e até que ponto estará disposto a manter uma postura firme no combate à inflação.
A primeira coletiva de Warsh será acompanhada em busca de sinais sobre como o novo presidente pretende se comunicar, qual será seu grau de tolerância a uma inflação acima da meta e até que ponto estará disposto a contrariar a Casa Branca.
A mudança de comando ocorre em meio a questionamentos sobre a independência do Fed e às pressões do presidente Donald Trump por juros menores.
“As turbulências no fim do mandato de Jerome Powell servem como lembrete de que a independência dos bancos centrais não é algo garantido. O que está em jogo vai além da estabilidade de preços e alcança a própria arquitetura financeira global”, afirma Anis Bensaidani, economista do BNP Paribas.
Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para presidir o Federal Reserve, em foto de 21 de abril de 2026
Reuters/Kevin Lamarque
Novo comando, velhas pressões
A troca de comando no Fed ocorre após meses de atritos entre Trump e o então presidente da instituição, Jerome Powell. Desde o início de seu segundo mandato, o republicano argumenta que juros elevados encarecem o crédito e prejudicam a economia.
🗣️ As críticas se intensificaram em julho do ano passado, quando Trump chegou a chamar Powell de “estúpido” e “cabeça oca”, acusando as decisões de juros de prejudicar os americanos.
Em entrevista à NBC News na última semana, porém, Trump adotou um tom diferente ao comentar o novo comando do banco central.
Donald Trump e o ex-presidente do Fed, Jerome Powell, em 24 de julho de 2025.
REUTERS
O republicano afirmou que quer que Warsh “faça o que quiser”, mas voltou a defender juros mais baixos e criticou a possibilidade de novas altas. Na visão do presidente, a economia americana continua forte, e encarecer o crédito seria uma forma de “punir o sucesso”.
Para Bensaidani, do BNP Paribas, a troca de comando no Fed, por si só, não deve provocar mudanças relevantes na condução dos juros. Segundo ele, a principal garantia da independência da instituição continua sendo a estrutura do comitê responsável pelas decisões.
“O voto de Warsh não tem mais peso do que o de qualquer outro diretor ou presidente regional com direito a voto — e esses integrantes, em geral, demonstram preocupação com o nível elevado e crescente da inflação.”
Na avaliação de Luiza Paparounis e Francisco Lopes, analistas do BTG Pactual, a combinação de atividade econômica forte, mercado de trabalho sólido e inflação elevada exige cautela por parte do Fed.
Ao mesmo tempo, uma postura “excessivamente paciente” pode ser interpretada pelo mercado como sinal de tolerância à inflação. Por isso, a comunicação do comitê ganha ainda mais importância.
Para os analistas, Warsh deve levar ao Fed sua visão crítica sobre o excesso de sinalizações a respeito dos próximos passos dos juros.
“É possível que ele tente reduzir a importância de sinalizações explícitas sobre a trajetória dos juros e enfatize que as decisões serão tomadas reunião a reunião, com base nos dados”, dizem.
Juros altos por mais tempo
Os dados recentes da economia americana ajudam a explicar por que o Fed enfrenta uma tarefa mais complexa e por que cresce a percepção de que os juros terão de permanecer elevados por mais tempo.
💼 Mercado de trabalho aquecido: a criação de 172 mil vagas em maio e a taxa de desemprego estável em 4,3% — ainda em níveis historicamente baixos — mostram que a economia continua gerando empregos. Ao mesmo tempo, os salários avançam cerca de 3,4% ao ano, sinalizando que a demanda por trabalhadores segue forte.
⛽ Pressão nos preços: a inflação voltou a ganhar força. O índice de preços ao consumidor (CPI), uma das principais medidas do custo de vida, acumula alta de 4,2% em 12 meses, o maior patamar em três anos. O movimento foi impulsionado principalmente pelo aumento dos preços da energia em meio ao conflito no Oriente Médio.
📈 Inflação ainda distante da meta: mesmo ao excluir itens mais voláteis, como alimentos e energia, os indicadores seguem acima do objetivo de 2% perseguido pelo Fed. O núcleo do CPI está em 2,9%, enquanto o núcleo do PCE — índice de inflação preferido do banco central americano por refletir melhor os hábitos de consumo das famílias — permanece em torno de 3,3%.
📉 Crescimento mais moderado: por outro lado, a atividade econômica dá sinais de perda de fôlego. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa anualizada de 1,6% no último trimestre, abaixo dos 2% projetados anteriormente e das expectativas do mercado, indicando desaceleração em relação aos períodos anteriores.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, espera que o Fed abandone qualquer sinalização de corte de juros e reforce uma postura de “esperar para ver”, mantendo as decisões condicionadas aos próximos indicadores e ao cenário geopolítico.
“Embora Warsh tenha defendido recentemente uma flexibilização monetária antes do conflito, ele deve adotar uma postura técnica. Em sua primeira passagem pelo Fed, entre 2006 e 2011, era considerado mais rígido”, afirma Sung.
Para Axel D. Angermann, economista-chefe do Grupo FERI, a reunião desta semana pode ter implicações mais profundas do que a simples decisão sobre os juros.
Na avaliação dele, a estreia de Warsh pode marcar o início de uma “direção fundamentalmente nova” para o Fed, refletindo críticas que o economista faz há anos às políticas adotadas por seus antecessores, como Powell, Ben Bernanke e Janet Yellen.
Segundo Angermann, Warsh vê com ceticismo a expansão do balanço do banco central e a atuação mais ativa do Fed para sustentar a economia. Para ele, isso pode representar uma ruptura com a estratégia adotada nas últimas décadas e abrir espaço para uma condução menos intervencionista.
“A política monetária dos EUA pode voltar a seguir uma abordagem baseada em regras, como ocorreu pela última vez na década de 1990, sob Alan Greenspan, evitando ajustes ativos na economia e no mercado de trabalho.”
Para Angermann, mais importante do que a decisão desta semana será observar se Warsh começará a colocar essa filosofia em prática nos primeiros meses à frente do Fed.
Sede do Federal Reserv (Fed), Banco Central dos EUA.
REUTERS/Joshua Roberts

