Brasileira processa empresa do YouTuber MrBeast por assédio; veja as principais acusações


Brasileira processa empresa de MrBeast por assédio
A brasileira Lorrayne Mavromatis afirmou, em publicação nas redes sociais na quarta-feira (22), que sofreu assédio sexual e moral enquanto trabalhava em empresas do youtuber MrBeast, um dos maiores criadores de conteúdo do mundo.
As alegações constam em uma ação judicial protocolada na Justiça dos Estados Unidos, à qual o g1 teve acesso. No processo, Lorrayne afirma que foi submetida a uma série de irregularidades trabalhistas durante o período em que esteve empregada pelas companhias.
Entre os principais pontos da ação está a suposta violação da Lei de Licença Familiar e Médica (Family and Medical Leave Act – FMLA), que garante afastamento temporário do trabalho em situações como o nascimento de filhos. Segundo a denúncia, a empresa teria:
Deixado de orientar formalmente a funcionária sobre seus direitos ao solicitar a licença‑maternidade.
Exigido que ela continuasse trabalhando durante o período de afastamento, incluindo:
Participação em chamadas de trabalho enquanto ainda estava na sala de parto;
Gestão de lançamentos de produtos;
Atuação em projetos que envolveram inclusive viagem internacional ao Brasil, poucas semanas após o nascimento do filho.
Demitido a funcionária menos de três semanas após seu retorno integral ao trabalho, o que, segundo a autora, caracterizaria retaliação. A ação afirma ainda que Lorrayne foi posteriormente substituída por um homem.
O processo descreve o ambiente de trabalho como um “clube do bolinha”, marcado por tratamento desigual entre homens e mulheres. De acordo com a ação, Lorrayne teria sido excluída de reuniões compostas apenas por homens, além de relatar episódios considerados humilhantes.
Entre eles, estaria a ocasião em que teria sido obrigada a buscar uma cerveja para Jimmy Donaldson (nome de MrBeast) antes de uma gravação — uma tarefa que, segundo a denúncia, tinha caráter degradante, especialmente por ter ocorrido diante da equipe.
A denúncia também cita condutas atribuídas ao então CEO da empresa, James Warren, que teria feito comentários considerados inapropriados sobre a aparência da funcionária e solicitado encontros privados fora do ambiente profissional.
Em outro trecho do processo, Lorrayne afirma que Warren teria comentado sobre o suposto “efeito sexual” que ela causaria em MrBeast. Ainda segundo o relato, ao comunicar que um cliente teria feito avanços indesejados, ela teria ouvido como resposta que deveria se sentir “honrada”.
Após formalizar uma queixa interna sobre o ambiente de trabalho, em novembro de 2023, Lorrayne afirma que passou a sofrer uma série de consequências profissionais, que descreve como retaliatórias. Entre elas, segundo o processo:
Foi transferida de um cargo executivo para uma função de nível médio na divisão de mercadorias da empresa;
Teve suas atribuições reduzidas e perdeu autonomia;
Foi desligada de sua equipe;
Passou a atuar em um setor descrito internamente como o local onde “as carreiras vão para morrer”;
Teria sido isolada profissionalmente, com redução de orçamento e responsabilidades.
A ação judicial afirma ainda que as empresas ligadas a MrBeast não possuíam um manual tradicional de funcionários, adotando em seu lugar um documento intitulado “How to Succeed in MrBeast Production” (“Como ter sucesso na produção do MrBeast” em português).
MrBeast e Lorrayne Mavromatis
Richard Shotwell/Invision/AP e Instagram
Segundo o processo, o guia continha diretrizes consideradas problemáticas, como:
“É normal que os meninos sejam infantis”;
“Não não significa não” (no contexto de alcançar resultados para vídeos);
“A quantidade de horas que você trabalha é irrelevante”.
Para Lorrayne, essas orientações teriam contribuído para a normalização de comportamentos abusivos e para a violação de direitos trabalhistas básicos.
A brasileira afirma que as experiências vividas durante e após a gravidez resultaram em impactos graves à sua saúde mental, incluindo diagnósticos de depressão severa, ansiedade e episódios de ideação suicida.
A ação inclui pedidos de indenização por sofrimento emocional, além de alegações de violação das leis da Carolina do Norte que proíbem discriminação de gênero e retaliação no ambiente de trabalho.
Pedidos à Justiça
No processo, a brasileira pede indenizações e outras medidas de reparação contra as empresas, incluindo o pagamento de salários e benefícios perdidos após a demissão e uma compensação adicional prevista na legislação americana.
Ela também solicita a reintegração ao cargo — ou pagamento indenizatório — além de danos por sofrimento emocional e danos punitivos, sob a alegação de conduta deliberada ou negligente.
O pedido inclui ainda reembolso de custos processuais, pagamento de juros e o reconhecimento judicial de violação de leis trabalhistas da Carolina do Norte, além de outras medidas que a Justiça considerar cabíveis.
A autora afirma, por fim, que pretende ampliar a ação com base na lei federal dos Estados Unidos que proíbe discriminação no trabalho, após autorização da Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego (EEOC).
O processo foi protocolado na Justiça federal dos Estados Unidos, no Tribunal Distrital do Distrito Leste da Carolina do Norte. A escolha do local ocorre porque as empresas mantêm operações na região, especialmente em Greenville, e, segundo a ação, os fatos apontados como irregulares ocorreram dentro dessa jurisdição.
Até o momento, as empresas citadas não se manifestaram publicamente sobre as acusações. O caso segue em tramitação na Justiça dos Estados Unidos.
O g1 procurou as empresas citadas, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.
Jimmy Donaldson, conhecido como MrBeast
Richard Shotwell/Invision/AP

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