‘Febre do ouro’ é sintoma de uma economia doente, afirma economista; valor bateu recorde em janeiro


O que explica o preço recorde do ouro que chegou a ultrapassar a marca de US$ 5.500 nesta semana? Para responder a essa questão, Sérgio Vale, pesquisador da área de economia e política internacional do Instituto de Estudos Avançados da USP, compara a valorização do metal a uma reação de defesa do organismo diante de uma infecção no sistema econômico.
“O ouro é como se fosse uma febre. E o que a gente precisa agora é identificar a causa dessa febre. É uma bactérias, é um vírus, é uma bactéria agressiva? Os remédios que existem resolvem?”, disse ele em entrevista ao podcast O Assunto desta quarta-feira (28).
Ouça, no player acima, a partir de 20:04.
Diferente de crises anteriores, o cenário atual é impulsionado por uma desorganização profunda nas instituições americanas e tensões geopolíticas sem precedentes sob a presidência de Donald Trump em sua segunda passagem pela Casa Branca.
Sérgio Vale, que também é economista-chefe da consultoria MB Associados, diz acreditar que o problema dessa vez não tem solução.
“Nos anos 70, a febre do ouro que a gente teve tinha remédios. O Volcker foi um remédio, trouxe remédios da economia que funcionaram e aí a febre passou. A febre do ouro passou nos anos 80”, diz ele.
“A febre do ouro agora, eu tenho a impressão que não tem remédio, que não tem antibiótico de última geração para solucionar essa crise nesse momento. Porque o agente causador infeccioso agressivo continua presente.”
O economista citado por ele, Paul Volcker, esteve no centro da reformulação da ordem monetária internacional que desmontou o sistema ouro-dólar criado pelos acordos de Bretton Woods, em 1944. Volcker, que morreu em dezembro de 2019, ocupou o cargo de subsecretário do Tesouro no governo Nixon e teve participação decisiva na decisão unilateral dos Estados Unidos de encerrar a conversibilidade do dólar em ouro.
Em 15 de agosto de 1971, ele fez o anúncio que marcou o início do regime de câmbio flutuante, no qual o valor das moedas passa a ser determinado pelo mercado, sem um controle rígido dos governos. A partir daí, as moedas antes atreladas ao dólar — e, indiretamente, ao ouro — passaram a flutuar livremente.
Por que o preço do ouro disparou?
O avanço do metal é alimentado por uma combinação de fatores políticos e fiscais, especialmente centrados nas ações do governo de Donald Trump:
Incerteza política e institucional: ataques diretos à independência do Federal Reserve (Fed) e processos contra diretores do banco central americano geram instabilidade.
Crise fiscal nos EUA: uma política fiscal mal desenhada tem gerado grandes déficits e dúvidas sobre a capacidade de ajuste do Congresso americano.
Tensões geopolíticas: disputas comerciais com a China e ameaças erráticas contra países da OTAN (como a menção de tomar a Groenlândia) pressionam os mercados.
Na sexta-feira (30), Donald Trump indicou o economista Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve para ocupar a posição que hoje é de Jerome Powell, cujo mandato termina em maio e que é muito criticado pelo presidente americano. A nomeação ainda precisa ser aprovada pelo Senado.
Warsh é visto como favorável a juros mais baixos, mas considerado menos radical do que outros nomes avaliados. Por isso, sua indicação foi bem recebida pelo mercado: como resultado o dólar ganhou força e ativos alternativos perderam valor, caso do ouro, que caiu 3,7%.
Ouça a íntegra do episódio aqui.
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O Assunto é o podcast diário produzido pelo g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Desde a estreia, em agosto de 2019, o podcast O Assunto soma mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o podcast diário do g1 soma mais de 14,2 milhões de visualizações.
Imagem de barra de ouro em foto de arquivo
REUTERS/Maxim Shemetov/File Photo

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