Reag e Banco Master: como a gestora entrou no radar das investigações da PF?


Banco Central decreta liquidação da Reag
O Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários — novo nome da Reag Investimentos, com sede em São Paulo —, aprofundando a conexão entre a empresa e as investigações que miram um suposto esquema de fraudes no Banco Master.
A liquidação extrajudicial foi decretada em meio à segunda fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça
A apuração investiga irregularidades financeiras atribuídas ao Banco Master e envolve personagens centrais do mercado. Entre os alvos da operação está João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag, que teve endereços submetidos a mandados de busca e apreensão na quarta-feira (14).
As diligências também alcançaram locais ligados ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a seus familiares.
Por autorização do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, foram expedidos 42 mandados de busca e apreensão, além de ordens de sequestro e bloqueio de bens e valores que, segundo a Polícia Federal, superam R$ 5,7 bilhões. Durante a operação, agentes apreenderam ainda R$ 97,3 mil em dinheiro em espécie.
O nome da Reag, porém, não aparece apenas neste inquérito. A seguir, o g1 reúne as principais informações sobre a empresa e explica de que forma ela surge vinculada ao escândalo envolvendo o Banco Master.
O que é a Reag Investimentos
Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag Investimentos tornou-se uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo com bancos.
A empresa chegou a administrar R$ 299 bilhões de pessoas físicas, empresas, fundos de pensão e investidores institucionais e foi a primeira gestora de patrimônio a ter ações negociadas na bolsa brasileira.
A Reag era controlada pela Reag Capital Holding S/A, que também administrava a CiabraSF, outra holding independente citada na operação Carbono Oculto, em agosto.
A CiabraSF teve sua compra concluída pelo Grupo Planner na terça-feira passada (6), em uma transação que teve como condição a realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) para alienação do controle.
A Reag ganhou visibilidade ao patrocinar o Cine Belas Artes, um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo. Com a aquisição dos direitos de nomeação, o espaço passou a se chamar REAG Belas Artes.
Em dezembro, no entanto, o Cine Belas Artes anunciou o fim da parceria e iniciou uma campanha para encontrar um novo patrocinador.
Quem é João Carlos Mansur
João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, é um dos investigados na segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master.
Essa não foi a primeira vez que o empresário se envolveu em polêmicas. Mansur renunciou ao cargo de presidente do conselho de administração da Reag Investimentos em setembro do ano passado, após a empresa ter sido algo de uma megaoperação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Bacharel em ciências contábeis, Mansur fundou a Reag Investimentos em 2012, possui 35 anos de experiência no mercado financeiro e atua como conselheiro independente autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para gerir carteiras de investimentos.
O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag
Reprodução/LinkedIn
O empresário tem experiência em auditoria, controladoria, gestão financeira, planejamento estratégico, análise de investimentos e desenvolvimento de negócios.
Em seu perfil no LinkedIn, afirma ter estruturado mais de 200 fundos de investimento — incluindo Fundos de Investimento Imobiliário (FII), Fundos de Investimento em Participações (FIP) e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) —, além de conduzir outras operações no mercado de capitais.
Mansur atuou como executivo em empresas como PricewaterhouseCoopers (PwC), Monsanto, Tishman Speyer e WTorre Arenas, participando ainda da criação do estádio Allianz Parque.
Além de sua ligação com times de futebol por meio da Reag, Mansur trabalhou na Trump Realty Brazil, empresa que levava o nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A joint venture foi criada em 2003, mas o contrato com o Republicano durou apenas até 2006, uma vez que o projeto fracassou antes de concluir qualquer empreendimento imobiliário.
Expansão no mercado financeiro
Nos últimos anos, a gestora fez diversas aquisições que ampliaram sua presença no mercado. Entre as empresas incorporadas estão Hieron, Berkana, Rapier, Quadrante e Quasar.
Em 2024, a Reag adquiriu a Empírica Investimentos, especializada em crédito estruturado e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), posicionando-se entre as três maiores do setor, com cerca de R$ 25 bilhões sob gestão.
Em 2025, a empresa viveu um novo capítulo: em janeiro, realizou a incorporação reversa da plataforma de serviços GetNinjas, usando sua estrutura já listada na B3 para se transformar em uma holding aberta. Com essa reorganização, a GetNinjas deixou de existir como empresa independente, e suas ações passaram a ser negociadas sob o código REAG3.
Menos de dois meses após a estreia na bolsa, a Reag Capital Holding anunciou um novo passo: a listagem da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (CiabraSF), também do grupo, sob o código ADMF3.
A CiabraSF iniciou as operações com um portfólio robusto, administrando mais de 700 fundos e patrimônio líquido de cerca de R$ 240 bilhões.
Outra empresa do grupo era a Reeve (RVEE3), listada na bolsa em abril de 2025 — mas não citada na operação da PF. A companhia ganhou destaque em 2024 ao se associar à XP Investimentos e à Tauá Partners na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Portuguesa, assumindo a revitalização do estádio do Canindé.
Operação Carbono Oculto
Em agosto do ano passado, a PF deflagrou a Operação Carbono Oculto para desarticular um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, atribuído a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo as investigações, o grupo deixou de recolher mais de R$ 7,6 bilhões em impostos e operava irregularidades em diferentes etapas da cadeia de produção, distribuição e comercialização de combustíveis.
Para ocultar a origem dos recursos, o esquema utilizava uma estrutura financeira sofisticada, baseada no uso de fintechs e fundos de investimento.
Ao menos 40 fundos, entre multimercado e imobiliários, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, teriam sido controlados direta ou indiretamente pela facção. Muitos deles eram fundos fechados, com um único cotista, o que dificultava a identificação dos reais beneficiários.
A Reag Investimentos foi envolvida na operação como uma das empresas citadas nas investigações envolvendo fundos de investimento usados para ocultar recursos.
Segundo a Polícia Federal e a Receita Federal, administradoras de fundos teriam ciência das irregularidades e deixado de cumprir obrigações legais, contribuindo para esconder a movimentação financeira da organização criminosa.
As apurações indicam que fintechs eram preferidas em detrimento de bancos tradicionais para dificultar o rastreamento das transações.
Em um dos casos, a Receita Federal identificou uma fintech que funcionava como um “banco paralelo” da organização criminosa, movimentando mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024.
Parte dessas operações passava por chamadas “contas-bolsão”, que misturam recursos de diversos clientes e reduzem a transparência das movimentações.
Os valores obtidos com o esquema foram usados para adquirir ativos e blindar patrimônio, incluindo usinas sucroalcooleiras, distribuidoras, transportadoras, postos de combustíveis, imóveis, fazendas e um terminal portuário.
Operação Compliance Zero
Já nesta quarta-feira (14) a Polícia Federal realizou a segunda fase da operação sobre um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master que incluiu buscas em endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do banco, e parentes dele.
Além deles, o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora de fundos Reag Investimentos, também estavam entre os alvos.
A investigação detectou que havia captação de dinheiro, aplicação em fundos e desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro e parentes. O celular do dono do Master foi apreendido.
Nessa etapa da operação Compliance Zero, havia 42 mandados de busca e apreensão, determinados por Toffoli, além de medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões. Foram apreendidos diversos carros e itens de luxo.
Os mandados tinham alvos em São Paulo, incluindo endereços na Avenida Faria Lima, um dos principais centros financeiros da capital paulista, e os estados da Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
O que diz a Reag?
Procurada pelo g1 nesta quinta-feira, a empresa não se manifestou sobre a liquidação decretada pelo Banco Central até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações dos citados.
No site da holding, é mantida uma nota de outubro, em que afirma que “atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais, sob a supervisão permanente de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central”.
Veja na íntegra o comunicado abaixo:
“A REAG Capital Holding S.A. vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos.
A companhia reafirma que:
* atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais, sob a supervisão permanente de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central;
* as estruturas societárias, fundos de investimento e participações sob sua gestão ou administração obedecem integralmente às normas de compliance, governança corporativa, prevenção à lavagem de dinheiro (Resolução nº 50/2021 do Coaf) e conheça seu cliente (Know Your Customer – KYC);
* é incorreto e descabido afirmar que tenha figurado como sócia em operações ou estruturas dos fundos sob sua administração, pois, conforme a Lei nº 8.668/1993, os bens e direitos integrantes dos fundos não se confundem com o patrimônio da administradora, não integram seu ativo e não respondem, direta ou indiretamente, por obrigações da instituição;
* está colaborando de forma ampla e proativa com as autoridades competentes, fornecendo todas as informações e documentos necessários ao esclarecimento dos fatos, convicta de que sua isenção e integridade serão plenamente reconhecidas.
São Paulo, 15 de outubro de 2025
REAG Capital Holding S.A.”
Infográfico explica caminho do dinheiro no esquema do PCC.
Arte/g1
Reag Investimentos
Divulgação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *