
O primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu, que apresentou sua renúncia ao presidente francês esta manhã, faz uma declaração no Hotel Matignon em Paris, em 6 de outubro de 2025.
Reuters/Stephane Mahe/Pool
A França vai proibir a importação de frutas da América do Sul que contenham resíduos de cinco agrotóxicos proibidos na Europa: mancozeb, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim.
O anúncio foi feito no domingo (4) pela ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, e pelo primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, em postagens das redes sociais.
“Tomei a decisão de suspender a entrada em nosso território de gêneros alimentícios que contenham resíduos de várias substâncias proibidas na Europa”, disse Genevard, na manhã de domingo (4).
“Não podemos aceitar que substâncias banidas aqui reapareçam indiretamente por meio das importações. É uma questão de bom senso”, complementou.
O primeiro-ministro francês disse que uma ordem sobre o tema será emitida nos próximos dias pela ministra da Agricultura. Além disso, detalhou quais frutas podem ser banidas.
“Abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs da América do Sul ou de outros lugares não serão mais permitidos no território nacional”, disse o primeiro-ministro francês.
“Uma brigada especializada realizará verificações reforçadas para garantir o cumprimento das nossas normas sanitárias”, acrescentou.
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“Um primeiro passo para proteger nossas cadeias de suprimentos e nossos consumidores, e para combater a concorrência desleal, uma verdadeira questão de justiça e equidade para nossos agricultores”.
Os cinco agrotóxicos citados pelo primeiro-ministro francês são liberados no Brasil, mas o g1 perguntou ao Ministério da Agricultura se o país utiliza essas substâncias na produção das frutas que devem ser atingidas.
Não houve resposta até a última atualização desta reportagem.
O g1 fez os mesmos questionamentos à Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) e aguarda posicionamento.
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Participação da França nas vendas de frutas do Brasil
A União Europeia é o principal destino das exportações de frutas do Brasil, mas a França, individualmente, tem baixa representatividade nesse mercado.
De janeiro a novembro de 2025, a UE comprou 58,7% do volume de frutas exportado pelo Brasil. No mesmo período, a França foi responsável por apenas 0,6% do total das exportações, mostram dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura.
Na UE, os maiores compradores de frutas brasileiras são os Países Baixos e a Espanha, que concentram 42% e 10,6% das vendas, respectivamente.
Entre as frutas citadas pelo primeiro-ministro francês, a goiaba, a manga e o abacate são as mais vendidas pelo Brasil para os franceses. Ainda, assim, o país europeu representa pouco no total das exportações desses produtos.
De janeiro a novembro de 2025, a França respondeu por 12% do volume de goiaba exportado pelo Brasil, ocupando a posição de terceira maior compradora.
No mesmo período, o país europeu absorveu 5,7% das exportações brasileiras de abacate, figurando como o sexto principal destino do produto.
Já em outros mercados citados pelo primeiro-ministro — como manga, laranja, limão, uva e maçã — a participação francesa é inferior a 1%.
Pressão de agricultores franceses contra Mercosul
O anúncio do primeiro-ministro francês ocorre em meio ao adiamento do acordo entre União Europeia e Mercosul, que estava programado para o último mês de dezembro. A França, pressionada pelos agricultores do país, se opõe ao pacto nas condições atuais.
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O acordo comercial busca reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos (UE e Mercosul). Ele havia sido fechado em dezembro de 2024 entre a Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Agricultores protestam contra acordo entre União Europeia e Mercosul
No entanto, a pressão da França, apoiada nos últimos dias pela Itália, forçou o adiamento da assinatura para janeiro deste ano.
Mesmo assim, os produtores franceses continuaram protestando contra o governo e a União Europeia. Eles afirmam que o tratado prejudica setores agrícolas da Europa, principalmente os de carne bovina, aves, açúcar e soja.
No dia 19 de dezembro, dezenas de agricultores franceses despejaram esterco e outros resíduos em frente à casa de praia do presidente Emmanuel Macron, em uma manifestação que incluiu a oposição ao acordo e outras reivindicações.
Na ocasião, um caixão com a frase “Não ao Mercosul” foi colocado em frente à mansão de tijolos vermelhos do presidente e de sua esposa, Brigitte Macron, na cidade litorânea de Le Touquet, no norte da França.
Um dia antes, agricultores franceses e de outros países protestaram em frente ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, na Bélgica, enquanto os líderes dos 27 países realizavam a última cúpula de 2025.
Manifestantes queimaram pneus e atiraram batatas e objetos na polícia, que reprimiu o protesto.
França vai suspender importação de frutas do América do Sul com agrotóxicos proibidos na Europa
